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Opinião Opinião

Os fãs contra-atacam

Por Gilson Luis Cunha
Última atualização: 01.12.2019 às 12:19

(Data estelar 01122019)

Imagine uma visita que você não convidou, invadindo sua casa, mudando os móveis de lugar, abrindo seus armários, vestindo suas roupas e criticando seu modo de viver. Absurdo, não é? No entanto, ao longo de quase uma década, é assim que os fãs de franquias famosas do cinema e da TV se sentem. Mais do que isso. Na hipotética invasão, você ainda pode chamar a polícia na pior das hipóteses. Na mutilação estética sofrida por *Star Trek*, *Star Wars*, *Doctor Who*, entre outras, não há a quem apelar. O recente desfile revoltante de roteiros imbecis, péssimas atuações, desrespeito com décadas de histórias que vivem (ou viviam) nos corações dos fãs é um abuso perpetrado pelas empresas proprietárias dessas marcas. E ai de quem reclamar.

De modo a se tornarem imunes a críticas, os produtores desses filmes e séries usam a tática perfeita: a *sinalização de virtude*. Todos, sem exceção, se declaram publicamente engajados em causas nobres, como a luta contra o machismo, o racismo, a homofobia, a violência contra a mulher, o desmatamento, etc. Assim, qualquer crítica feita a essas produções é atribuída a racistas, misóginos, homofóbicos, reacionários, etc. O uso desse expediente, atacar o público por ele cobrar algo mais do que boas intenções (a história é um lixo.

Mas veja! Olhe que mensagem bonita!) tem levado conglomerados como a Warner, a Paramount e, mais recentemente, a Disney a uma onda extrema de descrédito entre os fãs. Com a compra da Lucasfilm em 2012, os fãs de *Star Wars* ficaram em polvorosa (no bom sentido). A maior corporação de entretenimento multimídia do mundo, com um histórico de décadas de sucessos em diversas áreas, tinha adquirido Star Wars. Melhor ainda. Kathleen Kennedy, produtora de confiança de diretores como Steven Spielberg e George Lucas, o pai da saga, ficaria encarregada pessoalmente de uma nova trilogia, que encerraria a história da família Skywalker em seu nono episódio, como era o plano original de Lucas, há décadas.

JJ Abrams, o, então, mais recente queridinho de Hollywood, seria o encarregado de dar o tom da nova trilogia. Egresso de *Star Trek*, franquia que sempre desprezou, ele se dizia fã da saga de George Lucas. Os fãs ficaram animados. Infelizmente a coisa começou a azedar. Em 2015, *Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força* estreia mundialmente com reações muito diferentes daquelas esperadas. Logo de cara, descobrimos que toda a luta e sacrifício dos heróis no episódio VI foi em vão. Uma facção do Império chamada de Primeira Ordem retomou o poder na galáxia e caça os sobreviventes da curtíssima nova república.

O roteiro introduz a nova geração de heróis: Poe Dameron, um valente piloto da resistência (o equivalente atual da aliança rebelde), Finn, um ex-storm trooper da primeira ordem que se revolta, aliando-se à resistência, e Rey, uma misteriosa jovem que parece ser uma jedi em estado bruto, sem treinamento, mas extraordinariamente dotada pela força. Apesar de algumas cenas interessantes, o filme é pouco mais do que uma refilmagem preguiçosa e com mais orçamento do *Episódio IV, Uma Nova Esperança*.

O filme causou comoção por marcar a morte gratuita de um dos personagens mais queridos da trilogia clássica. Ficou claro que o objetivo era mesmo a destruição de tudo o que se viu antes, para que uma nova geração de fãs assumisse e se identificasse com os novos personagens. Pois bem, o tiro errou feio. A bilheteria foi boa, 965 milhões de dólares em todo o mundo. Mas as “decisões criativas” foram execradas por boa parte do público.

No *Episódio VIII: Os Últimos Jedi,* o estrago foi maior: Lançado em 2017, a um custo de 200 milhões, o filme conseguiu um lucro “modesto” para uma produção que ambicionava competir com gigantes como AVATAR, de James Cameron, ou com os filmes da Marvel, fazendo 596 milhões de dólares. O filme, dessa vez dirigido por Rian Johnson, investe no visual, mas o roteiro é completamente caótico. Personagens surgem de parte alguma e vão para lugar nenhum. Entram mudos e saem calados. Finn e Poe, que se esperaria serem irmãos de armas de Rey em sua luta contra a primeira ordem, viraram coadjuvantes de luxo. Como se não bastasse, uma nova personagem, Rose Tico, foi introduzida sem qualquer propósito, fazendo a precária química entre os personagens desandar. A cereja do bolo é a transformação de Luke Skywalker, o último representante da ordem Jedi em um completo imbecil. Não há outro modo de descrevê-lo.

É patente a agenda do filme em desconstruir os homens e enaltecer as mulheres, como se fosse necessário emburrecer o sexo masculino para destacar as virtudes femininas. O resultado veio a galope. As *action figures* dos novos personagens começaram a encalhar nas lojas dos Estados Unidos. O *Galaxy’s Edge*, a nova atração temática da Disney, inaugurada durante o verão americano, teve um público sofrível. E os fãs começaram a se organizar, no melhor estilo da aliança rebelde.

Youtubers de língua inglesa como Nerdrotic, Midnights’ Edge, Doomcock, Critical Drinker, entre outros, começaram a listar as embaraçosas derrapadas da produção, bem como uma série de infelizes entrevistas da equipe, como a mais recente, de Kathleen Kennedy, dada à revista Rolling Stone. Nela, a executiva-chefe da Lucasfilm e responsável por *Star Wars* perante a Disney deu um verdadeiro atestado de ignorância ao afirmar que “era muito difícil criar histórias para Star Wars, já que não temos material fonte como, por exemplo, acontece com os filmes de Harry Potter, inspirados nos livros”. Ocorre que há centenas de livros do assim chamado *Universo Expandido*, muitos dos quais dariam histórias bem superiores ao que tem sido visto nos cinemas. Isso, sem mencionar quase quarenta anos de quadrinhos de *Star Wars* editados pela Marvel e pela Dark Horse, entre outras editoras. Some-se a isso o fato de que plateias PAGAS se levantaram e foram embora da sala de projeção em sessões-teste, indignadas com o que viram, e temos a tempestade perfeita.

O filme passou por uma série de refilmagens, que só terminaram na semana passada, a menos de um mês da estreia mundial. Ao que se sabe, há pelo menos seis finais diferentes. Seis. Isso foi a gota d’água. Mas, meses antes disso, nascia The Fandom Menace (uma brincadeira com The Phantom Menace, *A Ameaça Fantasma, Episódio I*), que pode ser traduzida como “A Ameaça dos fãs”. O que era uma brincadeira começou a chamar a atenção da *casa do camundongo*. Muitos desses youtubers passaram a ser desmonetizados por mencionar os problemas pelos quais passa Star Wars. Assinantes de seus canais começaram a ser misteriosamente deletados. Mas eles não pararam.

Ficou claro que, a despeito de seus créditos como produtora, Kathleen Kennedy não estava preparada para assumir a franquia. Ela ignorou solenemente a chamada “bíblia” do cânone de Star Wars, um manual com linhas gerais sobre o universo criado por Lucas e como levá-lo adiante. Deu total liberdade a JJ Abrams e Rian Johnson para que vandalizassem a franquia. E esse é o estado atual da saga. Kennedy e sua equipe possuem o toque de midas invertido. Não é exagero dizer que mataram a galinha dos ovos de ouro. O merchandising da série, origem da fortuna de George Lucas, está encalhando em lojas americanas.

Pesquisas recentes sugerem que crianças e adolescentes se identificam muito mais com os personagens da Marvel do que com Star Wars. E JJ Abrams? O que dizer dele? O diretor é um notório charlatão, e enganar o público, para ele, é fácil como que respirar. Isso vem desde os tempos de *LOST*, série co-criada por ele. Você lembra de “Todos os mistérios de LOST serão solucionados”. “Ei! Não. Não era bem isso que eu quis dizer”. Lembra de *Star Trek: Além da Escuridão*? “Não. Definitivamente, o vilão de *Além da Escuridão* não será Khan. O nome dele é John Harrison”. E, logo em seguida: “Veja bem, era Khan, disfarçado como John Harrison. Eu não menti para ninguém”. Dada a ausência de um vilão carismático para o filme que encerra a trilogia, *A Ascenção Skywalker* (o tal “líder Snoke” morreu sem abrir a boca, no episódio VIII), JJ volta a seu truque básico: enrolar. “Não, claro que não.

O imperador Palpatine morreu em O Retorno de Jedi e não estará em *A Ascenção Skyawalker*”, disse ele em uma entrevista, ano passado. Só que não. O próprio trailer mostra, de modo inequívoco, que o vilão, supostamente morto, foi reciclado, como mais um dos tantos personagens reciclados na carreira deste que já está sendo chamado de “O anticristo cinematográfico”. Em sua mais recente entrevista ele citou *The Fandon Menace* nominalmente, levando os componentes do movimento ao delírio. Agora é tudo ou nada. É provável que, pela força da marca, o filme se saia bem. Não tão bem quanto *Vingadores, Guerra Infinita*, mas o bastante para o estúdio não sair no prejuízo. Isso, entretanto, é vergonhoso.

Semana que vem, Kathleen Kennedy, JJ Abrams e o elenco do filme estarão em um evento geek em São Paulo, divulgando o filme. Algo me diz que não abrirão para perguntas do público. Não sem antes escolher as perguntas a dedo, para evitar o embaraço dos convidados. Talvez exibam o filme, numa sessão surpresa. Mas será esse filme capaz de dar um final decente a uma série que prosperou durante décadas, apenas para sufocar sob o peso da arrogância e incompetência de Kathleen Kennedy, JJ e companhia? Parece pouco provável.

De minha parte, Star Wars acabou em 1983, com o *Episódio VI - O Retorno de Jedi* e não planejo assistir mais uma embromação de Jar Jar Abrams, como é “carinhosamente” chamado pelos fãs. O homem já foi comparado a uma nuvem de gafanhotos: destrói uma franquia e se move para outra. Até onde se sabe, o cidadão está de mudança para o universo cinematográfico DC/Warner, onde teria ganhado carta branca para “revitalizar” essa franquia (ai, meu fígado!). Boa sorte, fãs de Super-Homem, Aquaman, Mulher-Maravilha, Batman, entre outros. Vocês vão precisar.

Mas quem é JJ? De onde ele vem? Quais são os seus métodos e como, contra toda a lógica, ele consegue ser aceito, e muito bem pago, fiasco após fiasco? Essas e outras perguntas ficam para outra oportunidade. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.

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