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Cotidiano | Entretenimento Comportamento

À moda antiga: os fãs fiéis do analógico

Disco de vinil, filmes de VHS e máquinas fotográficas com filme ainda têm entusiastas

Por Matheus Chaparini
Publicado em: 27.02.2021 às 03:00 Última atualização: 27.02.2021 às 11:13

Marcelo Gross acredita que o som do vinil é melhor do que o do CD e inclusive vai lançar primeiro assim seu próximo trabalho Foto: PAULO PIRES/GES
Tinha algo errado com o som de casa e Marcelo Gross não conseguia entender o que era. Escutava cada vez menos seus CDs, já não tinha aquela vontade de aumentar o volume. Era o final dos anos 90. Foi por essa época que o músico ganhou um exemplar de Yesterday and Today, dos Beatles, uma edição americana de 1966.

"Quando comprei a agulha nova e botei pra tocar, eu percebi que o som digital não me dava a mesma emoção do analógico", recorda. Daquele momento em diante, os antigos discos de vinil da infância saíram do baú e a coleção começou a aumentar.

Gross afirma que não se trata de nostalgia ou fetiche, mas de uma questão física. "Digital é 0-1-0-1, são dados binários. A onda analógica é curva completa. A cada instrumento que entra vai aumentando o volume. O digital é aquela coisa chapada."

Até produção

Hoje, a coleção conta com mais de mil exemplares. A aparelhagem também foi se sofisticando. Outra vantagem do analógico: Gross alterna cápsulas e agulhas diferentes conforme o tipo de som que quer ouvir, algo inviável no digital.

A emoção maior veio quando passou a lançar seus próprios trabalhos em vinil. Os discos gravados com a Cachorro Grande desde 2009 saem também em vinil, bem como seus dois álbuns solo.

Morando em Canoas, ele prepara para o primeiro semestre o lançamento de seu terceiro disco, que estará disponível em vinil antes das plataformas digitais.

"Quando comecei a comprar disco, olhava a capa, lia a lista de músicas, mas só ia conhecer mesmo quando pegava na mão e botava no prato pra tocar. Quero que as pessoas que curtem meu som tenham essa experiência de ouvir pela primeira vez em vinil."

Objetos com história

Thiago Ruppentahl e suas fitas VHS Foto: Matheus Chaparini / GES-Especial
Quando Tiago Ruppenthal ficou sabendo que a última videolocadora do Centro da sua cidade ia fechar, primeiro deu um grito. Aquele era um local sagrado, onde ia toda sexta-feira, desde que se conhecia por gente, e que contribuiu para que decidisse trabalhar com audiovisual.

Assim que possível, foi até o estabelecimento, fez um rancho de DVDs e ganhou de presente as duas últimas fitas VHS disponíveis. Até a placa da estante dos "super lançamentos" se tornou parte da decoração de sua casa.

"Sempre gostei do ritual do VHS, de rebobinar a fita, ficar bravo quando o cara anterior não tinha rebobinado. Tinha trailer, muitas vezes descobri novos filmes pelos trailers. E aqui a gente não ia ao cinema, porque o mais próximo era em Novo Hamburgo", recorda.

A Topvideo, uma das últimas locadoras de Igrejinha, encerrou as atividades no dia 20 de fevereiro. Após mais de vinte anos, sucumbiu à era dos filmes e séries por streaming e deixou uma pequena legião de saudosos clientes.

"Meus pais já iam ali quando era a antiga dona. Toda sexta, a gente pegava no mínimo uns três, cinco filmes. Um dia a gente chegou lá e tinha só mais duas prateleiras de VHS, o resto era o DVD, essa coisa nova aí", brinca.

Valorizando o antigo

Morador de Igrejinha, Ruppenthal acredita que tudo que é antigo é melhor. Apesar de ter 30 anos, seu carro é um Fusca 1974, o som de casa é um Frahn, comprado zero por seu pai, e o home theater é um aparelho de som 3 em 1, achado no lixo, com caixas de som antigas. Até a colherinha que usa no café é parte do enxoval da avó.

Na família, ele faz a limpa em qualquer aparelho antigo que sobre. As mais recentes aquisições foram uma câmera super 8 e um projetor, vindos da casa do falecido avô. "É legal saber que uma parte da história das pessoas está nesses objetos, é um jeito de alcançar a eternidade."

 

Mais barato e com mais qualidade

Não teve muito romantismo ou nostalgia na escolha de Anderson Rodrigues pela fotografia analógica. A decisão foi simples. Além da preferência estética, era muito mais barato.

Em 2017, ele comprou uma câmera profissional e três lentes por R$ 700. Um equipamento digital semelhante custaria em torno de R$ 7 mil, estima.

Químicos e revelação

Hoje, Rodrigues é fotógrafo e laboratorista profissional. Além de fotografar, fabrica os químicos para revelação e revela em casa. Tem clientes espalhados pelo Brasil e até mesmo fora do país.

"Recentemente mandaram um filme da França. O cara não gosta do trabalho que os franceses fazem e prefere mandar para cá. Atualmente, é caro manter laboratório, então as pessoas usam químicos mais fracos ou velhos."

Comunidade

Rodrigues e a namorada, Carolina Scarpatto, criaram o coletivo Analog Gang. Na página do instagram, que conta com 11 mil seguidores, eles publicam fotos de outros profissionais, dão dicas de fotografia analógica e revelação. No começo do ano, eles fizeram um concurso de fotografia analógica. Entre profissionais, amadores e iniciantes, foram inscritas mais de 300 fotos de 150 fotógrafos.

O fotógrafo afirma que os filmes e negativos estão voltando com força, principalmente em trabalhos artísticos.

"Em capas de CD e material de artistas brasileiros, a maioria usa analógica. Empresas grandes também estão migrando, para divulgação de campanhas, catálogo de roupas, pela questão estética."

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