Publicidade
Cotidiano | Entretenimento Livros

A Peste, de Albert Camus, é romance quase profético

Livro publicado por escritor francês nos anos 1940 descreve uma epidemia com episódios que o leitor de 2021 vai reconhecer muito bem

Por André Moraes
Publicado em: 27.02.2021 às 03:00

Oran, na Argélia, norte da África, cenário da novela curiosamente profética de 1947 Foto: Adobe Stock
Esta semana não tem conteúdo de Turismo, por conta das circunstâncias muitíssimo complicadas da pandemia. Mas para não deixar de mostrar terras exóticas para o leitor, esta página traz a cidade argelina de Oran em um contexto adequado para este momento.

O interesse vem do fato de que Oran é o cenário da novela A Peste, do cultuado escritor francês Albert Camus (1913-1960). Publicada em 1947, a obra descreve uma pandemia que provoca uma escalada de mortes e motiva uma prolongada e sofrida quarentena.

Oran fica na Argélia, que nos anos 40 era uma possessão da França. O local foi tragicamente vitimado por uma epidemia, durante o século 19, e é este episódio no qual Camus baseia livremente sua história.

E a trama, para o leitor que passou por 2020 e está acompanhando graves desdobramentos da pandemia de Covid-19 agora em 2021, soa quase profética. Parece uma clipagem do noticiário dos nossos dias.

A história começa pela irrupção de uma doença, a princípio, entre os ratos, que começam a morrer aos milhares. Depois, aparecem pessoas com chagas que os médicos começam a questionar se não seriam análogas à peste bubônica ou à temida Peste Negra que assolou a Europa medieval.

Logo no começo do livro dá para encontrar as primeiras identificações com o momento atual. A reação inicial das autoridades é cautelosa, negando a possibilidade de uma peste. Conselhos de especialistas passam em branco e o problema se avoluma.

Eventualmente a cidade inteira é colocada em uma quarentena, que por sua vez se torna um problema em si mesma. Famílias são separadas, negócios param de funcionar, a sociedade paralisa.

E há a crise da saúde, claro. Um dos personagens principais é um médico, que precisa conciliar um drama pessoal com o progressivo esgotamento físico e emocional de lidar com as vítimas de uma doença que só avança.

Há outras figuras, como um viajante cansado que havia se radicado na cidade e, por interesse humanitário, decide se engajar na campanha sanitária. Um jovem jornalista foi surpreendido pela quarentena quando estava passando a trabalho pela cidade, e passa a compartilhar o destino dos cidadãos.

Da interação dessas pessoas entre si e com a epidemia vêm outras analogias com o momento atual. A sensação de impotência e às vezes desalento dos que atuam solitariamente no combate direto à doença; a dor das vítimas e suas famílias; o egoísmo dos que se recusam a adotar medidas de segurança que ajudariam a crise a passar; a compreensível revolta dos moradores que se veem enclausurados e privados de muitas coisas, inclusive às vezes o próprio trabalho, devido a um mal invisível.

Alguém poderia dizer que a vida imita a arte, e que A Peste é uma obra profética. Porém, Camus não queria falar, na verdade, de uma patologia biológica. Quando, mais tarde, foi comissionado para fazer uma adaptação para o teatro, o texto originou a peça Estado de Sítio, que escancara a metáfora política na base de A Peste.

Camus também foi autor do cultuado O Estrangeiro Foto: Reprodução
Escrita em 1947, logo após a Segunda Guerra, A Peste usava o episódio histórico da epidemia de Oran como uma metáfora para o nazismo, a ocupação e as diferentes reações sociais e pessoais às atrocidades de uma guerra que vitima a população mais que os soldados. Em Estado de Sítio, a peste vem na forma de um exército invasor.

Ainda assim A Peste é uma lição para a pandemia. Para fazer sua alegoria política, Camus antecipou vários ingredientes que daria para esperar de uma quarentena viral, desde a ação lenta de autoridades até a falta de solidariedade de alguns.

Sobre a analogia de A Peste com a Covid-19, talvez seja o caso, mais do que falar em profecia, de invocar uma frase de outro autor, o polêmico alemão Karl Marx: A história se repete, primeiro como farsa, depois como tragédia.

 

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.