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Opinião O futuro do Brasil

Nem Argentina, nem Venezuela

Por Alexandre Aguiar
Publicado em: 03.03.2021 às 22:55

O ministro da Economia, Paulo Guedes, em conversa com o mercado financeiro na terça-feira (2), alertou que o Brasil pode virar uma Argentina ou Venezuela em meses se errar muito na lição de casa. O ministro, que até agora muito falou e pouco entregou, acerta no diagnóstico que o País ruma para um momento terrível. Mas erra nos exemplos.

O Brasil não vai virar Venezuela. Na política é possível, apesar de termos travas institucionais que fazem pouco provável. Mas, na economia, é uma enorme improbabilidade ante a diversidade da nossa matriz econômica e a força do agronegócio. O petróleo, principal fonte de recursos de Caracas, é produto com concorrência e, se não bastasse, cada vez mais sofre a oposição das energias renováveis. Já comida, o que o Brasil mais produz hoje, um mundo cada vez mais superpopuloso e faminto não pode abrir mão.

A Argentina, que também como o Brasil tem seu pilar econômico em commodities, do ponto de vista econômico, seria o melhor exemplo do caminho que estamos a trilhar. O populismo econômico de Kirchner e a posterior incompetência de Macri com descontrole fiscal e intervencionismo levaram os hermanos a um quadro de endividamento absurdo que corroeu a confiança na Argentina, gerou fuga de capitais, fez a inflação disparar e levou o país à insolvência. Este é um script possível para o Brasil, aliás, muito factível.

Só que o Brasil parece querer ir mais além do que a Argentina e aí o Líbano é o exemplo a ser não seguido.

O país do Oriente Médio, como nós, tem uma sociedade vibrante e ativa. Não enfrentou décadas de ditadura militar como o Brasil, mas foi arrasado por uma guerra civil. Possui uma sociedade muito dividida e uma classe política corrupta e disfuncional. Está neste momento com sua moeda batendo recordes de desvalorização, tal como o real. Vê a pobreza e a miséria crescerem assustadoramente, tal como aqui.

E dentro do ambiente político, os libaneses ainda convivem com forte intervenção da religião com o partido Hezbollah, tal como em terras brasileiras. Lembram que uma igreja neopentecostal tem um partido para chamar de seu no Brasil e que pastores parecem ter maior influência no presidente que médicos e economistas?

O Líbano é hoje um "failed state", um país fracassado e sem perspectiva de futuro. Se não bastasse, ainda teve que enfrentar um desastre no ano passado com a explosão do porto de Beirute que arrasou parte da capital libanesa. E nem isso podemos dizer que ficamos livres. Morreu mais gente aqui por colapsos de barragens, igualmente por negligência como no porto que foi pelos ares no Oriente Médio.

Guedes e seu chefe Jair Bolsonaro tiveram um ano de calmaria após assumirem para aprovar as reformas que o Brasil precisava. Passou a da Previdência pela ação e vontade de Rodrigo Maia, enquanto Bolsonaro tentava sabotar incluindo privilégios para militares. As reformas administrativa e tributária? Nem pensar. O presidente estava mais ocupado em guerra cultural, tendo chegado a publicar vídeo de sexo explícito durante o carnaval.

Quando o céu era de brigadeiro, Bolsonaro escolheu não trabalhar. Agora, com uma pandemia que igualmente sabota os esforços de contenção, uma tempestade gigantesca, tudo ficou mais difícil. O Brasil está perto de virar uma grande Beirute com seus escombros.


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